NOTAS DO EPISÓDIO
<p data-end="20" data-start="0"><strong data-end="20" data-start="0">A última viagem.</strong></p> <p data-end="265" data-start="22">Era tarde da noite quando o taxista recebeu o chamado. Ao chegar, ele pensou em buzinar e aguardar. Mas imaginou que alguém que chamasse o taxi tão tarde poderia estar com alguma dificuldade. Saiu do carro, foi até a porta e tocou a campainha.</p> <p data-end="573" data-start="267">Uma senhora idosa, pequena, franzina, com o vestido estampado, abriu a porta. Equilibrava-se em uma bengala e, na outra mão, trazia a senhora. E uma pequena valise. Ele olhou para dentro e percebeu que todos os móveis estavam cobertos com lençóis. Ele apanhou a mala e ajudou a passageira a entrar no táxi.</p> <p data-end="869" data-start="575">Ela forneceu endereço e perguntou: podemos ir pelo centro da cidade? Mas o caminho que a senhora sugere é mais longo, observou o taxista. Não tem importância, afirmou ela, resoluta. Não tenho. Eu estou indo para um asilo porque não tenho mais família, e o médico me disse que morrerei em breve.</p> <p data-end="1031" data-start="871">O taxista, que começara a dar a partida, desligou o taxímetro, sutilmente. Olhou para trás, fixou-a nos olhos e perguntou: aonde mesmo a senhora gostaria de ir?</p> <p data-end="1286" data-start="1033">Ele a levou até um prédio na área central da cidade. Ela mostrou o edifício onde fora a sensorista, quando jovem. Depois, foram a um bairro onde ela morou, recém-casada, com seu marido. Apontou mais adiante o clube onde dançou com seu amor muitas vezes.</p> <p data-end="1439" data-start="1288">De vez em quando, ela pedia que ele fosse mais devagar ou parasse em frente a algum edifício. Parecia olhar na escuridão, no vazio. Suspirava e olhava.</p> <p data-end="1542" data-start="1441">Assim, as horas passaram e ela manifestou cansaço. Por favor, agora estou pronta. Vamos para o asilo.</p> <p data-end="1816" data-start="1544">Era uma casa cercada de alvoreto e, apesar do horário, ela foi recepcionada de forma cordial por dois atendentes. Ela se despediu do taxista. Quanto lhe devo? Nada, disse ele, é uma cortesia. Mas você tem que ganhar a vida, meu rapaz. Há outros passageiros, ele respondeu.</p> <p data-end="1985" data-start="1818">Sensibilizado, a envolveu em um abraço. Afetuoso. Ela retribuiu com um beijo e palavras de gratidão. Sabe, você deu a esta velhinha um grande presente. Deus o abençoe.</p> <p data-end="2265" data-start="1987">Naquela madrugada, o taxista resolveu não trabalhar mais. Ficou a sismar. E se ele apenas tivesse tocado a buzina duas ou três vezes e ido embora? E se tivesse recusado a corrida pelo adiantado da hora? E se tivesse querido encerrar o turno de forma apressada para ir para casa?</p> <p data-end="2556" data-start="2267">Deus se conta da riqueza que é ser gentil. Por vezes, pensamos que grandes momentos são motivados por grandes feitos. Contudo, existem coisas mínimas que representam muito para uma vida. O importante é estar atento, a fim de não perder essas ricas oportunidades de dar felicidade a alguém.</p> <p data-end="2850" data-start="2558">Mesmo que seja um simples passeio pela cidade. Uma ida ao cinema, uma volta pelo jardim, um bate-papo num final de tarde, atender um telefonema na calada da noite. Estejamos atentos para as coisas mínimas, os gestos quase insignificantes. Eles podem representar para alguém toda a felicidade.</p> <p data-end="2976" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2852">Pense nisso, mas pense agora.</p>
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