NOTAS DO EPISÓDIO
Um senhor de idade avançada chegou ao pronto-socorro para fazer um curativo em sua mão, que apresentava um profundo corte. Quando o médico iniciou o atendimento, percebeu que o idoso estava muito agitado, como se estivesse tomado de profunda afobação. Enquanto vagarosamente higienizava suas mãos antes de iniciar o procedimento, o senhor, contrafeito, acelerou: — Vamos, meu filho, ande rápido com isso, que eu estou com muita pressa. O médico começou a cuidar do corte. O idoso, agitado, não conseguia permanecer muito tempo com a mão em repouso, dificultando o procedimento. O médico ficou curioso a respeito do motivo de tamanha pressa e questionou o paciente, que respondeu: — É que todas as manhãs eu visito a minha esposa, que está em uma casa de repouso, pois sofre do mal de Alzheimer. — Agora eu entendi o motivo de tamanha pressa — disse o médico, não contendo um sorriso. — Se nos demorarmos por aqui, ela poderá ficar preocupada com a sua demora. — Na realidade, doutor, ela já não sabe nem quem eu sou — disse o triste idoso. — Há quase cinco anos não me reconhece mais. — Mas, então, por que tanta pressa? E por que há necessidade de estar com ela todas as manhãs, se ela nem o reconhece mais? Com um sorriso terno e um grato brilho no olhar, o velhinho respondeu: — Ela não sabe quem eu sou, mas eu sei muito bem quem ela é. Ela é o amor da minha vida. No mundo em que ocultamos a aparência física, a beleza e a imagem se sobrepõem a princípios morais e éticos. No mundo em que expressar o que se sente é sinal de fraqueza e ingenuidade, nos questionamos: onde está o amor? O amor é, por excelência, o centro da natureza de todos os seres. Muitos já falaram sobre o amor durante milênios. Tudo para que pudéssemos aprender a amar. Mas o que sabemos sobre o amor? E quantos de nós ultrapassamos as barreiras do orgulho e do egoísmo para vivenciarmos esse que é o sentimento mais sublime de todos? O amor é um modo. Uma filosofia de vida. O amor é um caminho a ser percorrido. O amor é a fonte de todas as virtudes, pois, sem ele, não há caridade, resignação, benevolência, perdão, esperança. Sem o amor, não há a suma criação. O amor é o laço que nos liga a todos e nos direciona ao mesmo fim, por um mesmo meio e de uma mesma forma. Onde o amor? Ele deve se fazer presente onde há guerra, onde há violência, onde há tristeza, dor, ódio, sofrimento, fome, angústia, desespero e solidão. Quando, amor? Quando a verdade vacilar, o desânimo se abater, o medo se aproximar, o orgulho prevalecer. Quando a saudade apertar, o coração se ferir e o egoísmo correr. Por que o amor? Porque o amor é o caminho certo a ser percorrido por todos aqueles que desejam ser verdadeiramente felizes, ter paz, alcançar o equilíbrio, progredir e compreender a nossa própria existência. Pensemos nisso, mas agora.
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