NOTAS DO EPISÓDIO
Arrumando a casa dos pais, já com os sinais do tempo marcando o corpo e a alma, Helena encontrou uma velha caixa esquecida no fundo de um baú. Estava coberta de poeira, amarelada, amarrada com um barbante desbotado, como se guardasse segredos que o tempo tentou esconder. Ao abri-la, um cheiro de papel antigo e memórias adormecidas invadiu o quarto. Dentro havia cartas, cartões-postais e dezenas de fotografias em preto e branco. Algumas amareladas, outras com as bordas gastas pelo toque de muitas mãos ao longo dos anos. Ela pegou uma ao acaso. Era uma imagem simples. Sua avó sentada na varanda, tricotando, com um sorriso calmo no rosto. Ao fundo, um lençol branco balançava na varanda suavemente com o vento, enquanto roupas dançavam sob o sol como bandeiras de um tempo esquecido. Helena sorriu. Lembrou-se de quando era criança e corria entre os lençóis estendidos, fingindo que eram cortinas de um castelo encantado. Naquela época, tudo parecia mais leve. As manhãs começavam com o cheiro de café coado e pão na chapa. As tardes eram feitas de brincadeiras na rua, pés descalços no chão quente e risadas que ecoavam até o entardecer. As festas eram simples, os domingos em família, e a vida era feita de pequenos momentos. Não havia pressa, nem telas, nem a constante sensação de estar atrasada para alguma coisa. O tempo tinha outro ritmo: mais calmo, mais gentil, mais humano. Helena ficou sentada ali no chão, com a foto nas mãos, por longos minutos. Lá fora, o som de uma notificação no celular a trouxe de volta ao presente. Abriu o aparelho. Mensagens do trabalho, da faculdade, do grupo do condomínio. Suspirou profundamente. "Como eu queria voltar para aquele tempo", pensou. O mundo agora girava mais rápido e ela, como todos, tentava acompanhar. Mas algo naquela foto a tocou de um jeito diferente. Naquela noite, em vez de assistir algo até tarde ou rolar o feed até adormecer, desligou tudo e foi para a cama em silêncio. Na manhã, acordou mais cedo. Preparou o café na chaleira, como a avó fazia, e foi se sentar na varanda. O sol da manhã aquecia seu rosto. Os pássaros cantavam, e o silêncio parecia conversar com ela. Foi ali que Helena entendeu: a simplicidade não ficou no passado. Ela ainda existe, escondida nas pequenas escolhas. Está em desligar o automático. Em sentir o sol na pele. Em ouvir o vento e o canto dos pássaros. A vida não precisa ser tão corrida. Às vezes, tudo o que a gente precisa é lembrar de como era para reaprender a viver agora. Pense nisso. Mas pense agora.
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