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PODCAST · 3375 EPISÓDIOS

PENSE NISSO

Um programa que traz minutos de reflexão sobre a vida, escolhas e atitudes do dia a dia, convidando você a desacelerar e olhar para dentro, despertando novos pensamentos e perspectivas que podem fazer toda a diferença.

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SEJA PATRÃO
11 Mar 20264:19EP 3223

SEJA PATRÃO

Você é empregado? Desculpe, usei o termo errado. Nesses tempos do politicamente correto e de eufemismos, a pergunta correta é, você é um colaborador? Vive reclamando da empresa, do chefe, do patrão? Se sente um injustiçado e acha que merece ganhar mais? Muito bem. Não há mal algum em querer um soldo maior. É um direito seu. Mas será que você tem ideia do que é administrar uma empresa e ter sobre os seus ombros a responsabilidade de centenas, quando não milhares de famílias que dependem das suas decisões nos negócios para que ganhe os seus alunos? Então aconselho que você abra uma empresa e se torne patrão. Eu indico a todos abrir uma empresa um dia e experimentar por alguns anos o que é a responsabilidade de enfrentar uma folha de pagamento, a regularização de impostos e equipe, o processo de seleção do investimento em equipamentos, estrutura e conforto para o trabalho. Indico a todos que façam esse experimento, que aprendam a calcular o valor hora de um trabalho, aprenda a calcular o valor de um salário, que invistam incontáveis horas com contadores, que fiquem outras noites sem conseguir dormir preocupado com as contas. Indico também que experimenta em formar pessoas, inspirar o melhor em cada um, motivar com palavras, com respeito, honestidade e com dinheiro. Invista em marketing, vista camisa e saia pelas ruas e redes sociais para atrair clientes. Experimente também segurar a onda quando os haters, que quer dizer inimigo em inglês, e as críticas chegarem, quando duvidarem de você e quando você mesmo duvidar. De verdade eu recomendo isso, recomendo ficar no cheque especial para não atrasar um dia a folha. Experimente também olhar no olho de um funcionário e demiti-lo, chegar em casa detonado por cada plano, ideia, estratégia que não deu certo, mas mesmo assim continuar firme e animado tentando. Faça esse teste, vai se ver acordando às três da manhã sem razão e com o pensamento num produto, numa conversa de escritório ou num plano para evitar falência. Faça esse favor a você mesmo, tente ser o filho da p*** do patrão por alguns anos, ser visto como explorador. Faça esse teste, mas faça por acreditar que seu negócio vai muito além de dinheiro. E quando você cansar, falir ou tiver sucesso, lembre-se de tudo que você passou. Guarde isso na alma, você um dia vai precisar quando a maré virar e transformar a vaidade em humildade, o ego em me desculpe, a marra em companheirismo, a malandragem em dedicação, a inveja em desejo de sucesso e as certezas em dúvidas. Faça esse experimento um dia, abra uma empresa ou pelo menos pense nisso.

NÃO VENHA ROUBAR A MINHA SOLIDÃO
10 Mar 20265:24EP 3222

NÃO VENHA ROUBAR A MINHA SOLIDÃO

Não venha roubar minha solidão, se não tiver algo mais valioso para o meu destino. O título do Pense Nisso de hoje foi transcrito da frase proferida pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, conhecido como o filósofo da afirmação da vida. Nos tempos atuais, tempos de vidas líquidas, onde tudo é descartável, as pessoas se agarram cada vez mais à solidão e têm na solidão um estilo de vida positivo. Dia desses, numa enquete feita por um programa radiofônico, foi feita a seguinte pergunta: você acha que é possível ser feliz vivendo sozinho? Pelas respostas, percebemos que a solidão, nos dias de hoje, seja mais atraente do que imaginamos. Pessoas diziam que, com tanta gente fútil que nos cerca, a solidão está mais para um remédio. Havia aqueles que opinavam dizendo que a solidão é luxo nos dias atuais. Muitos afirmavam que preferem a solidão como um modo de se protegerem da infâmia do politicamente correto, onde você corre o risco de ser processado por dizer “oi”. E arrematam: é melhor viver num casulo do que ter uma dor de cabeça explicando o inexplicável. O que fica claro diante dessas afirmações é que a solidão se tornou uma amiga protetora para nossa sociedade, onde tudo é tão líquido, que vê no relacionamento interpessoal um problema que somente a solidão resolve. Em suma, estamos nos tornando misantropos, isto é, vivemos com desconfianças da sociedade da qual fazemos parte. Existe em nós o dilema dos porcos-espinhos, criado pelo filósofo Arthur Schopenhauer. Quando sentimos frio, nos aproximamos, por necessidade, das pessoas. Mas, ao fazermos isso, espetamos e somos espetados pelos espinhos. E assim vivemos essa tensão: eu quero calor, eu quero proximidade com outras pessoas, mas essas pessoas têm ideias diferentes, gostos diferentes, opiniões dissonantes das minhas. Essas pessoas têm espinhos, e desta forma nos afastamos, para logo mais sentirmos a necessidade de nos aquecer de novo. Aqui fica a lição de que devemos viver em comunhão, mas sem ocupar o espaço sagrado de cada um. Sim, isso é uma arte que poucos dominam. É por isso que, em nossos dias, as redes sociais fazem tanto sucesso. Elas te aproximam das pessoas, mas sem que fiquem tão próximas a ponto de te espetarem com seus espinhos. Então, com o smartphone nas mãos, eu controlo as distâncias. Com o celular resolvemos o dilema do porco-espinho: ele aproxima, mas sem o risco de ser espetado. E, por outro lado, eu consigo um certo calor humano — tépido, tênue — mas com algum calor. E, ao mesmo tempo, mantenho a minha solidão controlada. Não venha roubar minha solidão, se não tiver algo mais valioso para oferecer em troca. Ofertamos, então, aquelas coisas, entre aspas, antiquadas, como, por exemplo, as visitas entre amigos, com os intermináveis bate-papos que hoje se extinguiram, graças a dispositivos tecnológicos que permitem contatos na nossa aldeia global sem sair da frente de um visor. Cultivar amizades, distribuir afagos, buscar companheiros para o entretenimento sadio, aplaudir um teatro, sair com colegas de trabalho para uma tarde de lazer junto à natureza são atos a que todos podemos nos propor. Aprendamos a desfrutar da companhia do outro, mesmo que, de vez em quando, haja alguns espinhos. Isso faz parte de uma relação menos líquida. No contato humano é que burilamos experiências e sentimentos. Aprendemos a disciplina do próprio proceder. Portanto, vamos viver uma vida menos líquida e parar de solicitar que a solidão seja sólida. Pense nisso, mas pense agora.

PATO OU ÁGUIA
9 Mar 20264:36EP 3221

PATO OU ÁGUIA

Estávamos no aeroporto quando um taxista se aproximou. A primeira coisa que notamos foi um táxi limpo e brilhante. O motorista, vestido de forma simples, mas como diziam os antigos, estava bem “nulinho”: camisa branca, bem passada, e com gravata. O taxista saiu, nos abriu a porta e disse: “Eu sou Willy, seu chauffeur. Enquanto guardo sua bagagem, gostaria que o senhor lesse nesse cartão qual é a minha missão.” Então estava escrito: Missão de Willy: levar meus clientes a seu destino de forma rápida, segura e econômica, oferecendo um ambiente amigável. Ficamos impressionados. O interior do táxi estava igualmente limpo. Willy nos perguntou: “O senhor aceita um café?” Brincando com ele, dissemos: “Não, preferimos um suco.” Imediatamente ele respondeu: “Sem problema. Eu tenho uma térmica com suco normal e também um diet, bem como água.” E continuou: “Se desejar ler, tenho o jornal de hoje e também algumas revistas.” Ao começar a corrida, Willy nos disse: “Essas são as estações de rádio que tenho e esse é o repertório que elas tocam.” Como se já não fosse muito, Willy ainda me perguntou se a temperatura do ar-condicionado estava boa. Daí nos avisou qual era a melhor rota para nosso destino e se queríamos conversar com ele ou se preferíamos ficar em silêncio. Perguntamos: “Você sempre atendeu seus clientes assim?” “Não”, ele respondeu. “Sempre somente nos últimos dois anos. Nos meus primeiros anos como taxista, passei a maior parte do tempo me queixando, igual aos demais taxistas. Um dia ouvi um doutor especialista em desenvolvimento pessoal. Ele escreveu um livro que dizia: ‘Se você levanta pela manhã esperando ter um péssimo dia, certamente o terá. Não seja um pato, seja uma águia.’” “Os patos só fazem barulho e se queixam. As águias se elevam acima do grupo. Eu estava todo o tempo fazendo barulho e me queixando. Então decidi mudar minhas atitudes e ser uma águia.” “Olhei os outros táxis e motoristas: os táxis sujos, os motoristas pouco amigáveis e os clientes insatisfeitos. Decidi fazer algumas mudanças. Quando meus clientes responderam bem, fiz mais algumas mudanças.” “No meu primeiro ano como águia, dupliquei meu faturamento. Este ano já quadrupliquei. O senhor teve sorte de tomar meu táxi hoje. Já não estou mais na parada de táxis. Meus clientes fazem reserva pelo meu celular ou mandam mensagens. Se não posso atender, consigo um amigo taxista águia confiável para o serviço.” Willy era fenomenal. Oferecia um serviço de limusine em um táxi normal. Willy, o taxista, decidiu deixar de fazer ruído e queixar-se, como fazem os patos, e passou a voar por sobre o grupo, como fazem as águias. Não importa se você trabalha em um escritório, com manutenção, professor, servidor público, político, executivo, empregado ou profissional liberal. Você se dedica a fazer barulho e se queixar? Ou está se elevando acima dos demais? A concorrência sempre vai existir, e ela é positiva. Faz com que as coisas e as pessoas progridam. A decisão é sua, e cada vez você tem menos tempo para mudar. Afinal, você é um pato ou uma águia? Pense nisso, mas pense agora.

A SABEDORIA DO SAMURAI
7 Mar 20262:54EP 3220

A SABEDORIA DO SAMURAI

Conta-se que, perto de Tóquio, capital do Japão, vivia um grande samurai. Já muito idoso, ele agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário. Certa tarde, apareceu por ali um jovem guerreiro, conhecido por sua total falta de escrúpulos. Assim que soube da reputação do velho samurai, propôs-se a não sair dali sem antes derrotá-lo e aumentar sua fama. Todos os discípulos do samurai se manifestaram contra a ideia, mas o velho aceitou o desafio. E, diante dos olhares espantados, o jovem guerreiro começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, ofendendo inclusive seus ancestrais. Mas o velho permaneceu sereno e impassível. No final da tarde, sentindo-se exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se. Desapontados pelo fato de o mestre ter aceitado calado tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram: — Mestre, como o senhor pode suportar tanta indignidade? O sábio ancião olhou calmamente para os alunos e, fixando o olhar em um deles, perguntou: — Se alguém chega até você com um presente e lhe oferece, mas você não o aceita, com quem fica o presente? — Com quem tentou entregá-lo — respondeu o discípulo. — Pois bem, o mesmo vale para qualquer outro tipo de provocação, e também para a inveja, a raiva e os insultos — disse o mestre. Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carrega consigo. Assim, aceitar provocações ou deixá-las com quem nos oferece é uma decisão que cabe exclusivamente a cada um de nós. Pensemos nisso.

STEPHEN HAWKING - UM HOMEM NOTÁVEL
6 Mar 20266:04EP 3219

STEPHEN HAWKING - UM HOMEM NOTÁVEL

Era o dia 8 de janeiro de 1942, dia em que o mundo lembrava os 300 anos da morte de Galileu Galilei. Em uma maternidade na cidade de Oxford, Inglaterra, nascia um menino que seria chamado Stephen. Em plena segunda guerra mundial, a cidade de Oxford era segura devido ao acordo mútuo de não agressão às cidades de grandes universidades, firmado entre Inglaterra e Alemanha. Criado em Londres, foi um garoto saudável e de desempenho escolar regular, nunca ficando entre os primeiros da classe. Aos 17 anos, contra a vontade do pai que o queria médico, Stephen Hawking inicia o curso de física, seu grande sonho em Oxford. Ainda durante a universidade, começou a mostrar sintomas de uma estranha doença. Lentidão nos movimentos, quedas, dificuldades de fala. Aos 21 anos, o diagnóstico sombrio, esclerose lateral amiotrófica. Até hoje sem cura, essa doença destrói os neurônios que controlam os movimentos e os músculos vão paralisando lentamente. É como uma sentença de morte sem data para acontecer, como escreveria ele mais tarde. Os médicos tinham dado três anos no máximo de vida ao jovem Stephen. O jovem rapaz, aturdido pelo diagnóstico, encontrou apoio em sua namorada, Jane, que o incentivou a fazer o doutorado e a procurar emprego, pois os dois deveriam casar. Em sua tese, iniciou os estudos que comprovaram a teoria do universo em expansão, a partir de um ponto conhecido como Big Bang. Casou-se e teve três filhos, encontrando na esposa uma companheira incansável. A lentidão física, segundo ele, lhe dava tempo para pensar mais. Em 1991, Hawking e Jane se divorciaram, mas continuaram unidos pelo amor. Ganhou fama também com o estudo do Buracos Negros, publicando trabalhos científicos e livros que o notabilizaram, enquanto seu corpo paralisava progressivamente. No início do livro, Uma Breve História do Tempo, ele diz que, exceção feita a sua doença, ele é feliz em todos os aspectos de sua vida, tendo sorte de ter escolhido uma profissão que só precisa do intelecto. Chegou a escrever que sua deficiência não lhe causara maiores problemas, tendo contado com o auxílio da família, de colegas e alunos. Ele se comunicava por um sintetizador de fala, ligado a um computador, possibilitando-o até de dar palestras. Nunca parou de estudar. Desafiou a medicina com sua longa sobrevida. Em 14 de março de 2018, Stephen Hawking morreu sereno aos 76 anos em sua casa em Cambridge, Reino Unido, no mesmo dia do nascimento de outro grande gênio, Albert Einstein. Pensemos quantos de nós, frente ao mais leve sintoma de doença, cuidamos de nos afastar do trabalho ou dos estudos, com atestados médicos de longa duração. Quantos se aposentam por invalidez e não voltam mais a estudar, sequer desenvolvendo algum trabalho que esteja dentro das novas condições físicas. Que o exemplo desse notável homem, que ocupou a cadeira de professor lucasiano de matemática na Universidade de Cambridge, lugar já ocupado por Isaac Newton, nos sirva de reflexão e de exemplo de vida. Para finalizar o Pense Nisso de hoje, vamos refletir com as palavras de Stephen Hawking. Você pode me ouvir? Tem sido uma época gloriosa estar vivo e fazer pesquisas em física teórica. Nossa imagem do universo mudou muito nos últimos 50 anos e estou feliz por ter feito uma pequena contribuição. O fato de nós humanos, que somos uma mera coleção de partículas fundamentais da natureza, termos sido capazes de chegar tão perto para compreender as leis que governam a nós e o nosso universo. Quero compartilhar a minha alegria e entusiasmo sobre essa busca. Então, lembre-se de olhar para as estrelas e não para os pés. Tente compreender o que você vê e se pergunte o que faz o universo existir. Seja curioso. E por mais que a vida possa parecer difícil, há sempre algo que você pode fazer para ter sucesso. O que importa é que você não desista. Quando temos de enfrentar a possibilidade de uma morte prematura, nos damos conta do quanto vale a pena viver. Obrigado por me ouvir.

GENTILEZA VIRILIZADA
5 Mar 20264:48EP 3218

GENTILEZA VIRILIZADA

O executivo estava na capital e entrou em um táxi com um amigo. Quando chegaram ao destino, o amigo disse ao taxista agradeço pela corrida. O senhor dirige muito bem. E, ante o espanto do motorista, continuou. Fiquei impressionado em observar como o senhor manteve a calma no meio do trânsito difícil. O profissional olhou, entanto incrédulo, e foi embora. O executivo perguntou ao amigo por que ele disser aquilo. Muito simples, explicou ele. Estou tentando trazer a fraternidade de volta a esta cidade e iniciei com uma campanha da gentileza. Você sozinho? Disse o outro. Eu sozinho? Não. Conto que muitos se sintam motivados a participar da minha campanha. Tenho certeza de que o taxista ganhou o dia com o que eu disse. Imagine agora que ele faça vinte corridas hoje. Vai ser gentil com todas as vinte pessoas que conduzir, porque alguém foi gentil com ele. Por sua vez, cada uma daquelas pessoas será gentil com seus empregados, com os garçons, com os vendedores, com sua família. Sem muito esforço, posso calcular que a gentileza pode se espalhar pelo menos em mil pessoas num dia. O executivo não conseguia entender muito bem a questão do contágio que o amigo lhe explicava. Mas você vai depender de um taxista? Não só de um taxista, respondeu o otimista. Como não tenho certeza que o método seja infalível, eu vou fazer a mesma coisa com todas as pessoas que eu contatar hoje. E se eu conseguir que, ao menos, três delas fiquem felizes com o que eu lhes disser, indiretamente vou conseguir influenciar as atitudes de um sem-número de outras. O executivo não estava acreditando naquele método. Afinal, podia ser que não funcionasse, que não desse certo, que a pessoa não se sensibilizasse com as palavras gentis. A importância foi a resposta pronta do entusiasta. Para mim, não custou nada ser gentil. Você já pensou como seria longe se agradecêssemos ao carteiro por nos trazer a correspondência em nossa residência? Ao médico que nos atenda, ao balconista, ao caixa do supermercado? E a um professor, então? Quantos se mostram desestimulados porque ninguém lhes reconhece o trabalho? Se receber um elogio? Se alguém lhe disser como é bom o trabalho que está realizando com seu filho? Como ele influenciará todos os alunos das várias classes em que leciona? E cada aluno levará a mensagem para suas casas, seus amigos, seus vizinhos? Pode não ser fácil, mas se pudermos recrutar alguém para a nossa campanha da gentileza, diz um provérbio de autoria desconhecida que as pessoas que dizem que não podem fazer não deviam interromper aquelas que estão fazendo alguma coisa. Pensemos nisso e procuremos nos engajar na campanha da gentileza. Pode não dar certo com uma pessoa muito mal-humorada, mas também pode ser que ela se surpreenda por ser cumprimentada e responda. Melhor do que isso, pode ser que ela decida cumprimentar alguém e, em fazendo isso, se sinta bem e passe a cumprimentar as pessoas todos os dias. Assim, estaremos espalhando o gérmen da gentileza, que torna as pessoas mais próximas umas das outras. Uma campanha que espalha confiança, tranquilidade. Afinal, se viriliza tantas coisas inúteis e com teor duvidoso, por que não virilizar algo tão saludar como a fraternidade? Pensemos nisso e façamos nossa adesão à campanha da gentileza, transformando a nossa cidade num oásis de paz.

IMPASSE
4 Mar 20267:21EP 3217

IMPASSE

A escolha de Sofia é um clássico que transformou-se em exemplo de impasse, de dilema a ser resolvido. Sofia vivia atormentada pela escolha que teve de fazer quando estava no campo de concentração. Entre todos os horrores pelos quais passou, o pior foi ter de escolher entre seu filho e sua filha. Qual dos dois deveriam ser mortos? Esta é a escolha de Sofia, uma mãe diante de um grande dilema. Em um documentário, foi proposto um experimento teórico para estudar a lógica da decisão. Imagine que um trem lotado encaminhasse para um precipício, redundando numa queda da qual não restariam sobreviventes. Posicionado em um entroncamento, você pode ativar uma alavanca para desviar o comboio, fazendo-a atingir um pequeno grupo de pessoas. Sua intervenção certamente causaria um número menor de vítimas. Como você agiria? Pesquisas sobre esse dilema mostram que as pessoas agiriam segundo o princípio do menor dano. Em mais de 90% dos casos, os sujeitos apertariam a barra salvando muitas pessoas, assumindo a responsabilidade pela morte de algumas outras. Porém, dizer nem sempre é fazer. Experimentos nos quais é preciso agir e não apenas declarar as intenções, apontam outro resultado. A convicção em torno de valores, princípios e regras pode se mostrar incrivelmente frágil diante da experiência real. Situações concretas, por sua vez, são muito sensíveis à contagem dos participantes. Sozinhos na situação do trem, você e sua consciência provavelmente tomariam uma atitude diferente daquela que teriam se houvesse testemunha. Isto nos leva a pensar sobre situações difíceis que precisam ser encaradas de frente e que vamos jogando de mão em mão como se fosse uma batata quente. Alguém espera que alguém resolva. Esse alguém que resolveria pode ser qualquer um, inclusive Deus, para quem acredita nele. Temos, nos últimos anos, aprendido muitos termos, palavras que significam viver ou morrer. Eutanásia, que é a prática pela qual se abrevia a vida de um inferno incurável de maneira controlada e assistida. Crime pelo código penal. Distanásia, um prolongar da vida de modo artificial, mesmo sabendo que não há mais esperanças, não há chances de cura. Morte lenta, sofrida. Ortotanásia, que significa morte correta, ou seja, a morte pelo seu processo natural. Neste caso, o doente já está em processo natural da morte e recebe uma contribuição do médico para que este estado siga seu curso natural. Conversar sobre isso é difícil. Questionar se uma pessoa em coma tem capacidade de ouvir e se ouve, ela tem condições ou poder de decidir se vive ou se desiste? Prefiro acreditar que sim. Há um apego e um apelo muito grande em se prolongar a vida, mesmo sabendo que não há mais esperanças. Mesmo sabendo que o que vem pela frente pode tornar-se insuportável para todos. Então, aqui entra a decisão do maquinista do trem. Alguém precisa fazer o papel do maquinista. O inconsciente é composto por figuras que o habitam e é sempre em companhia delas que você terá que decidir. A defesa inócua do criminoso comum é alegar que está em paz com sua consciência. Mas nunca estamos em paz com nossa consciência. Ela é feita para nos atormentar, para rever continuamente as consequências, causas e razões de nossos atos. Estar em paz com a consciência é, no fundo, não ter consciência. Em seu projeto de psicologia científica para neurológios de 1895, Freud estabeleceu alguns fundamentos para uma lógica da escolha. Em um verdadeiro processo de decisão, temos de comparar situações de tal forma que proposições se formem em nossa consciência. Antes de qualquer escolha, há uma espécie de meta-decisão envolvendo os caminhos pelos quais a opção pode ser feita. Podemos até estar bem-intencionados e acreditar que escolha é apenas uma elaboração do pensamento. Mas temos um júri coletivo que será destinatário de nosso juízo. Perguntamos como agiriam as pessoas que conhecemos, amamos ou respeitamos e, reciprocamente, como seríamos julgados por elas. A diferença entre a verdade do que dizemos e o real do que fazemos emana do fato de que agir compromete. Custa. Movemos a alavanca, nos tornamos responsáveis diretos pela morte de inocentes. Esperando passivamente que o trem caia no precipício, ficamos em paz com nossa consciência. Afinal, alguém deveria ter pensado nisso antes. Alguém da companhia de trens ou da vigilância anti-precipícios. Aqui surgem os dois outros elementos da lógica freudiana da decisão. A angústia e o tempo. A verdadeira escolha nunca é tomada sem a incerteza de um tempo de angústia. Há os que deixam a alavanca intacta e contam com a teoria neurótica do tempo indefinidamente elástico no qual alguém tomará ou já tomou a decisão certa por nós. Já aqueles que se lançam heroicamente para a alavanca seguem outra forma de temporalidade neurótica na qual o alguém sou eu mesmo livrando-me da angústia de decidir. De uma forma mais simples vem a pergunta. Você é quem decide ou espera que alguém decida por você? Pense nisso, mas pense agora.

CONTEMPLAÇÃO DO EXCELENTE
3 Mar 20264:34EP 3216

CONTEMPLAÇÃO DO EXCELENTE

Atravessamos, na Terra, fase de dificuldade sem conta, nas áreas de cultura geral. Desconhece-se a estrutura da própria linguagem que se fala. Usam-se gírias ou expressões chulas que denunciam a pobreza dos falantes relativamente à formação cultural. Ignoram-se os fatos históricos que envolvem a sociedade em que se vive. Espalham-se infames zombarias. Inventam-se lendas sem beleza e sem sentido, refletindo a pouca madureza social. Não se cogita de penetrar as razões desse ou daquele monumento, sentindo-se tantos impulsionados pelo instinto destruidor e vândalo que, incapazes de compreender, por descaso, preferem pichar, destroçar ou poluir, de modo drástico, o que encontram pela frente. O gosto pelas bibliotecas, pelas salas de arte, por museus, por teatros e pela literatura excelente de todos os tempos, tudo tem ficado na retaguarda das preferências. Os desportos nobres e educativos ainda contam com poucos adeptos. Temos, ao revés, um quadro enorme dos que procuram os exercícios desportivos excitantes e violentos, que pouco ou nada acrescentam no âmbito das conquistas do espírito. Encontram-se, com maior frequência, muitos que se ajustam a espetáculos pornográficos, do palco ou da tela, em franco deboche à sensibilizante arte. Diante de tudo isso, precisamos, com urgência, de educação e de boas referências. O bom gosto se forma pela contemplação do excelente e não do sofrível, diz Gate, compreendendo com perfeição a construção do aprendizado na alma humana. Cabe aos pais e aos educadores mostrarem o excelente, preencher os educandos de boas referências desde cedo, se desejarem desenvolver neles uma cultura rica e útil. As crianças, os jovens, precisam estar mergulhados num caldo cultural que favoreça o desenvolvimento de uma massa crítica que proporcione a contemplação do belo, que os ensine a pensar e a sentir. As grandes mídias estão repletas de um verdadeiro lixo cultural, se podemos chamar assim, porque nós, a grande maioria, consumimos isso. É uma das preferidas dos tempos atuais, inclusive evadindo áreas em que não há como se conjugar o verbo consumir, na essência. Pois o que não é material, o que não é tangível, não se consome. Na verdadeira arte, nada se consome; a arte se contempla, se admira. Ela alimenta a todos quando é instrumento do belo e do bem e nunca se acaba, pois o que se consome se finda. Podemos consumir um CD, um arquivo de MP3, mas nunca uma bela música. É tempo de retirar as cascas e máscaras que criamos através de nossos vícios morais e nos permitir enxergar tudo como realmente é. O que verdadeiramente importa para mim? Não sou um consumidor, sou um ser e estou aqui para crescer moral e intelectualmente. Quero aprender com quem já esteve aqui, com a história do meu povo, com os grandes, com os misturados, com aqueles que deram a vida para que hoje tivesse o conforto de que desfruto. Estou aqui para me tornar mais sábio. Não o sábio de biblioteca apenas, mas o que tem condições de aplicar em sua vida tudo aquilo que aprende, faz de seu conhecimento uma mola propulsora e possa amar mais e melhor. Cultura e amor: eis o que precisamos, com urgência. Pense nisso, mas pense agora.

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