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PODCAST · 1736 EPISÓDIOS

Pense Nisso

Um programa que traz minutos de reflexão sobre a vida, escolhas e atitudes do dia a dia, convidando você a desacelerar e olhar para dentro, despertando novos pensamentos e perspectivas que podem fazer toda a diferença.

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 COLABORAÇÃO
25 Fev 20263:11EP 1592

COLABORAÇÃO

Colaboração. Uma virtude pouco lembrada é a colaboração. A vida, generosa de sabedoria em toda parte, demonstra o princípio da cooperação em todos os seus planos. O solo ampara a semente e a semente valoriza o solo. As águas formam as nuvens e as nuvens alimentam as águas. A abelha ajuda na fecundação das flores e as flores contribuem com as abelhas na fabricação. Podemos perceber, nesses exemplos de colaboração, um convite para que também sejamos colaboradores. Sem nos darmos conta, muitos colaboram conosco no decorrer dos dias. É alguém gentil que nos cede a passagem no trânsito. Um motorista anônimo que avisa do perigo na estrada. Um pedestre que ajuda um idoso ou cego a atravessar a rua. São os médicos que nos atendem com presteza e afeto, doando-se além da sua obrigação. São os professores que se empenham um tanto mais para que os alunos aprendam as lições. São enfermeiros atenciosos que se esforçam por atender bem a um paciente, porque seu coração assim o determina. É mais que uma demanda, é um propósito de vida. Se é certo que pagamos por alguns serviços, também é certo que a dedicação e o carinho de cada profissional, ninguém e nenhum dinheiro. Se não nos damos conta disso, é porque talvez estejamos indiferentes para as coisas boas ou porque estamos acostumados a perceber somente as coisas ruins. É importante que tenhamos disposição para ver os fatos positivos que nos cercam. Dessa forma, poderemos dar a nossa colaboração, por mais singela que seja, onde quer que estejamos, para que a nossa vida e a vida dos que caminham conosco, nessa estrada evolutiva, possa ser mais suave. Agindo assim, em tudo que fizermos, estaremos colaborando de forma efetiva para o nosso próprio progresso espiritual. Quando vamos além das nossas obrigações, exercemos a função que nos cabe no progresso moral da humanidade. A vida na Terra é uma abençoada oportunidade de aprendizado para cada um de nós. Na colaboração de uns para com os outros, encontramos a chave que abrirá novos caminhos, quebrando as barreiras do individualismo e nos permitindo viver a verdadeira fraternidade. Que possamos colaborar em algo hoje, agora. Aproveitemos o momento que passa. Pense nisso, mas pense agora. Na colaboração de uns para com os outros.

FUGINDO DA VERDADE
24 Fev 20264:24EP 1591

FUGINDO DA VERDADE

A pintura A Verdade saindo do Poço, de Jean-Léon Jérôme, escultor e pintor francês, está ligada a uma parábola do século 19. Segundo essa parábola, a verdade e a mentira se encontram um dia. A mentira diz à verdade: hoje é um dia maravilhoso. A verdade olha para os céus e suspira, pois o dia era realmente lindo. Elas passaram muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço. A mentira diz à verdade: a água está muito boa, vamos tomar um banho juntas. A verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre que realmente a água está muito gostosa. Elas se despiram e começaram a tomar banho. De repente, a mentira sai da água, veste as roupas da verdade e foge. A verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a mentira e pegar suas roupas de volta. O mundo, vendo a verdade nua, desvia o olhar com desprezo e raiva. A pobre verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha. Desde então, a mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade porque, em todo caso, o mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a verdade nua. Bertrand Husserl, um dos mais proeminentes pensadores do século XX, escreveu em seu decálogo: “Seja escrupulosa, mãe! Verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.” Em nossos dias, o que menos sequer é a “inconveniência” da verdade. Vivemos através dos eufemismos para que, quem sabe, possamos suavizar ou até mesmo evitar a verdade. Mentimos para nós mesmos, procuramos nas futilidades algo que nos distraia e que nos mantém em nossa confortável e consoladora matrix. A fuga da realidade é um mecanismo de defesa a que muitas pessoas recorrem como forma de evitar determinados sofrimentos. Entretanto, na verdade, esse comportamento é uma espécie de paliativo, pois, por mais que no primeiro momento pareça que a dor irá diminuir, fugir da verdade não é o melhor caminho, já que os problemas serão apenas abafados por um tempo e continuarão ali, sem uma solução definitiva. O ideal é buscar forças para enfrentar esse desconforto, conseguir se libertar e encontrar sua felicidade. E você? Como está a sua relação com a verdade? Acredita que já recorreu ao mecanismo de fuga como forma de se proteger? Reflita. Por fim, busque seu autoconhecimento, de modo a entender como os acontecimentos e experiências passadas influenciam seus sentimentos e comportamentos atuais. Isto é indispensável para você viver sua realidade sem atalhos e para conquistar uma vida mais plena, madura e verdadeira. Diz a verdade, e a verdade vos libertará. Libertará da dor maior, do sofrimento insano, da incerteza, da desesperação, acendendo luzes de esperança em sua vida. Pense nisso, mas pense agora.

AJUDANDO A CHORAR
23 Fev 20263:28EP 1590

AJUDANDO A CHORAR

Ajudando a chorar Como anda seu envolvimento com as outras pessoas? Você é daqueles que se fecha em seus problemas, em suas dificuldades, nem sequer querendo saber se existe alguém à sua volta que precisa de ajuda? Ou você é daquelas almas que já consegue se envolver com as dores alheias, procurando diminuí-las ou, pelo menos, não deixando que alguém sofra na solidão? Há uma certa passagem que pode ilustrar isso. Foi vivida pelo autor Léo Buscalha quando, certa vez, foi convidado a ser jurado de um concurso numa escola. O tema da competição era a criança que mais se preocupa com os outros. O vencedor foi o menino cujo vizinho, um senhor de mais de 80 anos, acabara de ficar viúvo. Ao notar o velhinho no seu quintal, em lágrimas, o garoto pulou a cerca, sentou-se no seu colo e ali ficou por muito tempo. Quando voltou para sua casa, a mãe lhe perguntou o que dissera ao pobre homem. Nada, disse o menino. Ele tinha perdido a sua mulher e isso deve ter doído muito. Eu fui apenas ajudá-lo a chorar. A pureza do coração das crianças é sempre fonte de ensinamentos profundos. Geralmente, costumamos dizer que não estamos aptos a ajudar alguém, por não sermos capazes ou porque sabemos tão pouco para consolar. Para muitos, essa é uma posição de fuga, uma desculpa que encontramos para mascarar o egoísmo que ainda grita dentro de nossa alma, dizendo que precisamos primeiro cuidar de nós mesmos e que os outros são menos importantes. Para outros, isso reflete a falta de esclarecimento, pois precisamos compreender que todos temos capacidade de auxílio. Não nos preocupemos se não conhecemos palavras bonitas para dizer, ou se não podemos conceber uma saída miraculosa para uma dificuldade que alguém atravesse. Nossa companhia, nosso ombro amigo, nosso dizer “eu estou aqui com você” são atitudes muito importantes. Muitas vezes, o que as pessoas precisam é de alguém para chorar ao seu lado, para estar ali, afastando o fantasma da solidão para longe e não permitindo que os pensamentos depressivos tomem conta de seu senso. Outras vezes, mais importante que os conselhos, que as lições de moral, é o nosso abraço apertado, nosso tempo para ouvir o desabafo de alguém. Não precisamos ter todas as respostas e soluções dos problemas do mundo em nossas mãos para conseguir ajudar. Os verdadeiros heróis são aqueles que ofertam o que têm, o que sabem e, mais do que tudo, ofertam seus sentimentos, suas lágrimas aos outros. Não nos preocupemos em ter algo para dizer. Um abraço fala mais do que mil palavras. Uma prece silenciosa é como uma brisa suave, consolando os corações que passam por esse momento. Pense nisso, mas pense agora.

A CULPA É MINHA E COLOCO EM QUEM EU QUISER
21 Fev 20264:25EP 1589

A CULPA É MINHA E COLOCO EM QUEM EU QUISER

A culpa é minha e coloco em quem eu quiser. O título do Pense Nisso pode parecer irônico, mas tem sido o principal lema do nosso comportamento. Mesmo que inconscientemente, nós usamos desse jargão: a culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser. Pare e pense: estamos dando muitas desculpas sobre os nossos erros e dos resultados que não conseguimos atingir? Se a resposta for afirmativa, possivelmente estamos sofrendo de desculpabilidade. Isso é, sempre colocamos a responsabilidade dos nossos atos negativos em fatores externos, como no trânsito, a crise, a falta de sorte, o governo e, é claro, nas pessoas. Se os fatores fossem os donos do nosso destino e não temos responsabilidade, sempre damos desculpas pelos nossos descaminhos. Ouvindo histórias por aí, temos a impressão de que, em muitas das nossas fantasias, não precisaríamos pedir desculpas. Muitos de nós cultivam secretamente delírios nos quais somos infalíveis, honrados, dignos, fortes. Aí, quando não encontramos uma desculpa pelos nossos erros, nós usamos de um expediente muito em moda nos dias atuais: a vitimização. Pensando nisso, seguem seis regras para que possamos conviver melhor com os nossos limites, buscar ampliar os nossos horizontes e fugir do vitimismo. Primeiro: abaixe a guarda. Em situações de trabalho, na família ou em relacionamentos, pode ser importante se aproximar com as guardas baixas, reconhecer o ponto de vista do outro, respirar e falar de coração. Ouça. A hora de falar virá, mas, antes de qualquer coisa, é essencial ouvir. É desse processo que surgem as bases para o diálogo, para a conexão que pode permitir o surgimento de uma relação ainda mais madura do que a anterior ao erro. Assuma a responsabilidade. Não se vitimize. Todos nós já cometemos erros, sem exceção. Isso não é motivo para sair agindo de maneira irresponsável e não ligar para as consequências dos próprios atos. Mas também não significa que devemos nos culpar e nos posicionar como vítimas. Seja claro e honesto. E lembre-se: o foco não é você, é o erro. Não tente escapar do erro se explicando. Não se explicar não é deixar a pessoa no escuro, sem informação alguma a respeito do que ocorreu. Errou? Conte o que aconteceu. Explique a situação, mas não use isso como justificativa. Cuidado em usar o mas. Quando usamos o mas, é sinal que estamos nos justificando. Peça desculpas. Você pode até achar que passar por todo o processo de assumir o erro, não se justificar e reparar os danos é suficiente, mas não é. Portanto, peça desculpas. Peça ajuda. Melhor do que fazer promessas é pedir ajuda. Estamos todos no mesmo barco. Desta forma, podemos caminhar lado a lado, fortalecer os laços e crescer juntos. Reconhecer o erro, pedir perdão e ressarcir: eis um dos caminhos da felicidade. Pense nisso, mas pense agora.

COM AFETO E FIRMEZA
20 Fev 20264:05EP 1588

COM AFETO E FIRMEZA

Com afeto e com firmeza. Uma notícia publicada na mídia nos fez pensar muito sobre a educação que damos aos filhos. Relata que um adolescente de 15 anos, em Almeria, na Espanha, processou sua própria mãe depois que ela lhe tomou o celular para que ele parasse de jogar e se concentrasse nos estudos. A mãe queria que o filho deixasse o aparelho. Como ele não o fez, ela decidiu pelo confisco, com uso leve de força, segundo afirmou. O garoto, inconformado, abriu uma acusação formal contra ela junto ao Ministério Fiscal por maus-tratos domésticos. Pediu, ainda, que passasse nove meses encarcerada e arcasse com os custos processuais. O caso foi parar nas mãos do magistrado penal, que não só absolveu a mãe, como ainda lembrou que a lei exige que ela tome atitudes como aquela. Disse que é dever dos responsáveis garantir que as crianças e adolescentes do país tenham boa educação. A questão da educação no lar gera muitas dúvidas em alguns pais e mães, que parecem não se haverem dado conta da tremenda responsabilidade que lhes cabe. Aprendemos que grande é a influência que os pais exercem sobre o espírito do filho após o nascimento. Todos na Terra concorremos para o progresso uns dos outros; no entanto, os pais têm por missão desenvolver os caracteres de seus filhos pela educação. Isso constitui, para eles, uma tarefa, uma verdadeira missão. Quando nasce uma criança, embora toda a sua fragilidade, a personalidade e a idade que habita esse corpo pequeno e frágil já existem. Ela já possui uma personalidade. A personalidade da criança forma-se logo à nascença. Tudo o que interioriza está relacionado com o mundo ao seu redor. Aprende a chorar, a pedir as coisas, através de uma linguagem que ela própria definiu e que os adultos descodificam. Traz consigo, na forma de pendores e tendências enraizadas, as experiências vivenciadas em passadas existências. Em razão disso, devemos, desde cedo, observar as ações e o comportamento dos filhos, a fim de conduzi-los pelo melhor caminho. Fundamental dar-lhes responsabilidades gradativas, para que aprendam a responder por seus atos. Necessário estabelecer limites, a fim de conduzi-los à retidão moral e ética, preparando-os para a vida. Por vezes, como pais, desejamos poupar nossos filhos das dificuldades que tivemos que enfrentar. Então, buscamos lhes satisfazer todos os desejos. Salutar considerarmos que foram justamente as dificuldades pelas quais passamos que nos impulsionaram ao crescimento e à maturidade. Portanto, nossos filhos devem aprender a lutar pelos objetivos que desejam alcançar, para melhor entenderem os mecanismos da vida. Seja gentil com seu filho quando for necessário discipliná-lo. Oriente-o, impondo limites de uma forma afetuosa. Porém, estabeleça limites de forma firme e com autoridade. Pense nisso e aja na educação do seu filho enquanto é tempo.

AFABILIDADE
19 Fev 20264:25EP 1587

AFABILIDADE

A Afabilidade Todos desejamos ser amados. Mas será que já compreendemos a necessidade de sermos amáveis? A história nos conta que todos os que foram hóspedes de Theodore Roosevelt, o presidente americano, ficaram espantados com a extensão e a diversidade dos seus conhecimentos. Fosse um vaqueiro ou um domador de cavalos, um político ou diplomata, Roosevelt sabia o que lhe dizer. E como fazia isso? A resposta é simples: todas as vezes que ele esperava um visitante, passava acordado até tarde, na véspera. Porque Roosevelt sabia, como todos os grandes líderes do mundo, que a estrada real para o coração de um homem é lhe falar sobre as coisas que ele mais estima. O ensaísta e, outrora, professor de literatura de Universidade Yale, William Lyon Phelps, aprendeu cedo esta lição. Narra a seguinte experiência: “Quando tinha oito anos de idade, estava passando o final de semana com minha tia. Certa noite, chegou um homem de meia-idade que, depois de uma polida troca de gentilezas, concentrou sua atenção em mim. Naquele tempo, andava eu muito entusiasmado com barcos, e o visitante discutiu o assunto de tal modo que me deu a impressão de estar particularmente interessado no mesmo. Depois que ele saiu, falei, vibrante: ‘Que homem!’ Minha tia me informou que ele era um advogado de Nova York, que não entendia coisa alguma sobre barcos, nem tinha o menor interesse no assunto. — Mas então, por que ele falou todo o tempo sobre barcos? — Porque ele é um cavalheiro. Viu que você estava interessado em barcos e falou sobre coisas que lhe interessavam e lhe causavam prazer. Fez-se agradável.” Inspirados nessas duas ricas experiências, indagamos: será que nos esforçamos para nos tornarmos agradáveis aos outros? Será que encontramos neste mundo cavalheiros com tais características de altruísmo e polidez? São raros, infelizmente. Por isso, a lição nos mostra mais um caminho para a verdadeira caridade, ou mais uma sutil nuança dessa virtude. Se desejamos ser amados, obviamente precisamos nos esforçar para sermos amáveis. A amabilidade é esta qualidade ou característica de quem é amável. Por definição, é ser polido, cortês, afável; é agir com complacência. Dessa forma, concluímos que a benevolência para com os semelhantes, fruto do amor ao próximo, produz a afabilidade e a doçura, que são a sua manifestação. Não será porque sorrias a todo instante que conseguirás o milagre da fraternidade. A incompreensão sorri no sarcasmo, e a maldade sorri na vingança. Não será porque espalhes teus ósculos com os outros que edificarás o teu santuário de carinho. Judas Iscariotes, enganado pelas próprias paixões, entregou o Mestre com um beijo. Por outro lado, não é porque apregoas a verdade com rigor que te farás abençoado na vida. Na alegria ou na dor, no verbo ou no silêncio, no estímulo ou no aviso, acende a luz do amor no coração e age com bondade. Cultiva a brandura sem afetação e a sinceridade sem espinhos. Somente o amor sabe ser doce e afável.

VOZES AMIGAS
18 Fev 20264:30EP 1586

VOZES AMIGAS

Vozes Amigas Pedro e Ana se conheceram no colégio. De início, não simpatizaram muito um com o outro, mas reconheceram a inteligência e a integridade mútuas e se tornaram amigos. A amizade foi se consolidando e, em pouco tempo, evoluiu para algo mais forte, mais intenso. Eram companheiros de ideias e ideais. Um até sabia o que o outro estava pensando. Casaram-se, tiveram filhos, alguns cachorros, gatos, peixes. Fizeram amigos, viajaram, trabalharam em parceria. A vida nem sempre foi fácil, mas encararam unidos as dificuldades. O amor crescia, amadurecia e se fortalecia. Entraram na meia-idade planejando a aposentadoria e as viagens que fariam. Os filhos, criados, não precisavam mais de dedicação integral. Estavam batendo asas, independentes e autônomos. Em meio a planos resgatados do fundo do baú e ao nascimento de novos sonhos, Ana começou a sentir que algo não estava bem. Evitou alarmar o marido e foi ao médico. Para sua surpresa, foi diagnosticada com um tipo de câncer raro e agressivo. Passado o choque inicial, ela não se rendeu. Buscou informações, médicos e tratamentos alternativos. As perspectivas, no entanto, eram bastante sombrias. A família se uniu, e Ana decidiu seguir a vida até o momento em que não seria possível fazer mais nada. Foram anos de batalha com o químio, autonomia, terapia, cirurgias para a retirada de tumores, testes com novos medicamentos. Uma noite, internada na unidade de terapia intensiva e desenganada pelos médicos, pediu ao marido para conversar com familiares e amigos distantes. Como seria possível, contudo, se a entrada na UTI era restrita e nem todos conseguiriam? Além disso, conversar com todos lhe seria exaustivo e desgastante. Pedro teve uma ideia. Conversou com o médico de plantão e obteve autorização para permanecer ao lado dela e usar o celular. Fez contato com quase toda a sua lista de amigos e familiares, solicitando que gravassem, num dos aplicativos do celular, mensagens de afeto para Ana. Muitos não conseguiram gravar, por conta da emoção. Mas vieram mensagens de todos os cantos, com palavras entoadas, cantadas, sussurradas. Todas carregavam carinho, respeito e a esperança de um reencontro. Ana passou a noite ouvindo as mensagens que Pedro tocava, de tempos em tempos, em seu celular. Lágrimas escorriam dos olhos de ambos. Lágrimas escorriam também dos olhos de enfermeiros e médicos. Aquela UTI estava cheia de pessoas, não fisicamente, mas em boas energias, em luz. Ana atravessou aquela noite, acordou na manhã seguinte e permaneceu por mais uma semana, tranquila e serena, até a sua morte. Nesse período, pedia para ouvir as vozes amigas que tanto bem lhe haviam feito, que tanto carinho lhe haviam transmitido. Partiu em paz, sabendo que não estava só. As vozes amigas ladeavam, amparavam e a preparavam para retornar, segundo a sua crença, à pátria espiritual, onde iria se encontrar com outras vozes amigas, igualmente cheias de amor e saudade, ansiosas por aquele tão esperado reencontro.

VELOCIDADE MÁXIMA
17 Fev 20264:19EP 1585

VELOCIDADE MÁXIMA

O escritor português José Saramago escreveu: Não ter pressa não é incompatível com não perder tempo. Mas hoje o que mais se exige é rapidez. Rapidez em tudo. O computador deve ser de alta velocidade. É preciso pensar rápido, agir rápido para não perder negócios, para não perder audiência, para não perder mercado de trabalho. No mundo dos executivos, ao contrário da realidade do trânsito, não há limite de velocidade. A multa é alta para quem anda lento. A ordem é ser The Flash. Para esses, cada minuto conta. E se estressam somente contando o tempo que perdem aguardando o elevador, o semáforo abrir, o horário de atendimento bancário lhes fornecer as informações de quem necessitam. São pessoas que se sentem culpadas quando param para um cafezinho, porque poderiam estar produzindo. A sua meta é executar projetos, ler apenas livros técnicos, acelerar a rotina. Tudo o mais é desperdício. E, no entanto, a vida é feita de pequenas coisas. Felizes são aqueles que decidem subir pela escada para exercitar as pernas e a imaginação. Aqueles que têm tempo para um sorriso ao desconhecido que está na fila logo atrás, esperando sua vez para ser atendido. Os que, em vez de engolirem um sanduíche rápido no escritório, preferem almoçar com um amigo, com calma, bater um papo descontraído. Ou melhor, ir até em casa e observar os filhos crescerem, enquanto a família se reúne em volta da mesa. Essas pessoas não costumam usar atalhos para encurtar caminhos. Elas preferem procurar estradas com paisagens com que se possam deliciar. Quando viajam, vão com calma, não têm hora para chegar. Como as crianças, a quem o fazer é mais importante do que a tarefa pronta, eles param na beira da estrada para provar uma fruta e conversar com um vendedor que sempre tem histórias para contar. Histórias de vida, experiências importantes. Quando descobrem uma paisagem bonita, param para apreciá-la. Alguns fotografam para levar consigo aquele momento mágico. Chegam ao destino com maior disposição e alegria. Esses são os que adotam a filosofia de que menos é mais. Menos velocidade é mais oportunidade de olhar para os lados e apreciar a natureza. Menos horas de trabalho equivalem a mais tempo com a família. Tirando levemente o pé do acelerador das suas vidas, têm mais tempo para ouvir música, ler algo mais além do que a profissão lhes exige, assistir a um filme, meditar. Em síntese, têm mais tempo para viver. Em verdade, a velocidade máxima permitida para ser feliz é aquela que não nos deixa esquecer de que, além dos negócios, do trabalho, do dinheiro, o mais importante é a vida em si mesma. Viver é uma arte, por isso todo momento se faz importante. Também todas as experiências do cotidiano nos enriquecem. Desfrutar de cada uma delas, retirando o máximo de proveito, deve ser a meta do homem sábio. Isso significa aproveitar bem a vida, não desperdiçar nenhuma de suas oportunidades. Então, pare e pense nisso. Mas pare e pense agora.

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