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PODCAST · 1736 EPISÓDIOS

Pense Nisso

Um programa que traz minutos de reflexão sobre a vida, escolhas e atitudes do dia a dia, convidando você a desacelerar e olhar para dentro, despertando novos pensamentos e perspectivas que podem fazer toda a diferença.

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FISSURAS
25 Mar 20264:45EP 1616

FISSURAS

Fissuras Imagine uma parede que era robusta e aparentemente inabalável, que suportava ventos fortes e chuvas intensas há anos. Ela fazia parte de uma grande fortaleza, que ninguém arriscava atacar porque parecia ser inconquistável. No entanto, na sua face sul, onde o sol raramente tocava, havia uma irregularidade quase imperceptível. Era o resultado da pressa em sua execução ou, quem sabe, do descuido de um dos executores da obra. Agora, porém, isso pouco importava. Afinal, aquela muralha foi erguida há muito tempo, e os responsáveis por ela nem mais andavam sobre a terra. No entanto, aquela muralha não existia mais. Aquela imperfeição foi servindo de depósito natural da água da chuva e dos detritos trazidos pelo vento. A água foi se infiltrando no muro e trilhando um caminho próprio, em busca de uma saída entre as rochas reunidas por espessarga massa. Com o passar do tempo, uma fissura surgiu onde antes havia uma depressão quase invisível. Alimentada pelas águas das chuvas e pelo limo, que invadira a parede úmida e fria, foi se expandindo até tornar-se uma assustadora rachadura. Agora era vista mesmo à distância e parecia ameaçar a solidez de toda a estrutura. O tempo corria veloz, sem que providência alguma fosse tomada. A rachadura corrompeu a parte inferior do muro que, atingido pela umidade, deteriorava-se a olhos vistos. Em uma noite fria, quando o temporal ruidoso e inclemente avançava sobre a praia próxima, a ventania atingiu a muralha com violência. E ela, que suportara ventos ainda mais fortes, dessa vez não resistiu. Corrompida pela água, que agredir a sua base e parte de seus materiais, a grande parede tombou pesadamente, como se estivesse cansada de resistir. Como um robusto carvalho se permite, um dia, tombar depois de anos de majestade, também ela, traída pela pequena fissura, entregou-se à ação do tempo. Uma simples fissura, decorrente de uma imperfeição aparentemente insignificante, causou a queda do grande muro. Os que passam ao lado das ruínas daquilo que um dia foi uma imponente fortaleza ignoram que a destruição daquele monumento grandioso se iniciou com uma mera e banal rachadura. Assim também somos nós com os nossos vícios. Nos perdemos em meio a alguns hábitos infelizes, considerados muitas vezes como atitudes comuns na sociedade, que podem corromper as nossas mentes. Hoje são fofoquinhas a servir de passatempo aos desocupados; amanhã serão mentiras ardilosas a destruir lares e prejudicar vidas. Hoje são apenas alguns goles de bebida alcoólica para descontrair; amanhã serão drogas pesadas a arruinar centros nervosos e a lesionar profundamente os destinos. Os vícios surgem como pequeninas fissuras na conduta humana. Em um primeiro momento, não despertam grandes receios e chegam até a ser ignorados pelos menos avisados. No entanto, com o passar do tempo, vão se agigantando e invadindo o espaço que deveria ser da virtude. Abalam estruturas que pareciam sóridas e destroem futuros venturosos. Portanto, estejamos sempre atentos e pensemos nisso. Mas pensemos agora, e com seriedade.

IMPRESSÕES NEGATIVAS
24 Mar 20263:40EP 1615

IMPRESSÕES NEGATIVAS

Impressões negativas. Conduzir os jovens e adolescentes a um templo religioso muitas vezes não é uma tarefa fácil. Talvez seja em virtude da situação conflitante que a nossa sociedade tem passado. Isso faz recordar uma experiência vivida por um casal de amigos. Eles tinham um filho de 14 anos que não se interessava em frequentar as reuniões religiosas junto com os pais. Todas as vezes que eles falavam sobre a necessidade de buscar ajuda de Deus para enfrentar, com fé e confiança, as aflições da vida, o filho se mantinha calado, dedilhando sua guitarra, da qual poucas vezes se separava. Um dia, já cansados de tentar convencê-lo, os pais aproximaram-se do rapaz e começaram a lhe falar de ele os acompanhar ao templo religioso. O garoto, que até então estava calado, segurou as cordas da guitarra com uma das mãos, olhou para eles firmemente e disse: meus queridos pais, há quanto tempo vocês professam essa religião? O pai, imediatamente, respondeu que já fazia 20 anos, e a mãe disse que a professava desde o berço. O jovem abaixou a cabeça e continuou a acariciar sua guitarra. Mas os pais, inquietos, questionaram com impaciência o garoto: filho, por que você não fala direito com seus pais? Diga-nos, por favor, quais são os seus motivos. Com um certo ar de tristeza, ele falou: bom, eu não queria magoá-los, mas, já que insistem, vocês acabaram de falar os anos que cada um frequenta o templo religioso, e eu, que na verdade já sabia disso, peço que me digam com toda a sinceridade: para que serve a religião, se vocês vivem brigando dentro de casa? De que adianta buscar um Deus que não consegue fazer com que vocês se entendam e se perdoem, ao invés de viverem aos gritos um com o outro? Eu realmente não vou perder o meu tempo com coisas que não são eficientes nem para vocês mesmos. A história desses amigos vale como um motivo de sérias reflexões para todos nós. Esquecidos de que os filhos são portadores de inteligência e bom senso, os pais querem que eles acreditem no que falam e não no que eles acabam observando no dia a dia. Devemos entender e aprender que é importante ensinar pelo exemplo e não tentar convencer ninguém com teorias vazias. Os responsáveis pelo distanciamento dos jovens e o seu criador são aqueles que os cercam com a sua falta de fé ou hipocrisia. Por isso, para apontar um caminho correto aos seus filhos e filhas, ou para quem quer que seja, é importante que você esteja nele também. É necessário que, além de crer e falar, você possa viver para impressionar. Pense nisso e viva de acordo com os conceitos que acredita.

APRESSADA AVALIAÇÃO
23 Mar 20264:50EP 1614

APRESSADA AVALIAÇÃO

Apressada avaliação. Conta-se que um açougueiro trabalhava em um dia normal, quando entrou no estabelecimento um cachorro. Ele se preparou para enxotá-lo, quando percebeu que o animal trazia um saco à boca. Verificou que, dentro do saco, havia um bilhete. Atendeu ao que estava ali escrito, devolvendo ao cão o saco com carne bem acondicionada e o troco dos valores que encontrara. O animal, com o saco à boca, saiu tranquilamente do açougue e foi andando pela calçada. O açougueiro ficou intrigado com quem seria aquele cão tão bem treinado. Resolveu segui-lo. O cão chegou à esquina, levantou-se nas patas traseiras e apertou o botão do semáforo para a travessia de pedestres, parando o trânsito. Então, atravessou a rua na faixa de pedestres. Mais adiante, outro semáforo estava vermelho, e o cão parou. Quando o sinal ficou verde, o cão atravessou a rua. Chegando a um ponto de ônibus, esperou. Quando o primeiro ônibus parou, o cão olhou para o letreiro e não entrou. Quando outro ônibus parou, um pouco depois, o animal voltou a olhar o letreiro. Dessa vez, entrou e ficou perto da porta, acompanhando o trajeto com atenção. O homem do açougue estava perplexo; nunca viu nada igual. Depois de várias quadras, o cão desceu do ônibus e andou um pequeno trecho. Em frente a uma casa, abriu o pequeno portão e entrou. Parou à porta e começou a bater com a cabeça na madeira. Depois, foi à janela e tornou a bater a cabeça contra o vírus várias vezes. Finalmente, a porta se abriu. Um homem grande e zangado veio para fora e começou a agredir o cão, chamando-o de bobão, inútil, traste. O açougueiro não aguentou, deteve a agressão e falou ao dono do cão: — Que é isto? Você tem um animal extraordinário, treinado, inteligente, e o agride desta maneira? — Já falei um milhão de vezes, e este inútil ainda não aprendeu a abrir a porta! Naturalmente, o conto é fictício, mas vale a reflexão. Quantas vezes agimos como o dono desse cão? As pessoas nos servem, nos agradam, e nós só reclamamos. Reclamamos da mãe que não nos preparou a sobremesa que pedimos e esquecemos de agradecer a roupa limpa, impecável, no armário, os pratos preparados com amor, as frutas, o suco, o cereal no café da manhã. Reclamamos dos pais que não entendem nossos sonhos, nosso papo, nossa turma legal, e não lembramos dos braços que nos carregaram depois das brincadeiras na praia, das horas exaustivas de trabalho deles para nos garantir a escola, o lazer, as viagens. Reclamamos do funcionário que não atendeu a uma ordem em todos os detalhes; não lembramos das mil coisas que ele faz todos os dias, sem errar, dirigente, atento, vendendo sempre muito bem o bom nome da nossa empresa. Reclamamos sempre, numa atitude tola de quem não tem capacidade de avaliar o real valor dos que nos cercam. Pensemos nisso e tomemos ciência: primeiro, de que, por vezes, nos tornamos pessoas um tanto desagradáveis com esse tipo de atitudes; segundo, perguntemo-nos se nós mesmos faríamos melhor. É possível que a nossa incapacidade, preguiça ou acomodação nos digam que estamos reclamando de verdade por nos darmos conta de como somos dependentes dessas pessoas. Pensemos nisso e foquemos de forma diversa a nossa apressada e tola avaliação. Pensemos nisso, mas pensemos agora.

TUDO É TRANSITÓRIO
21 Mar 20263:59EP 1613

TUDO É TRANSITÓRIO

Tudo é transitório. Um redator de importante revista nacional escreveu, em um de seus artigos, algo que nos levou a reflexões a respeito da vida que levamos. Escreveu ele que pode até não ser verdade. Talvez a história não comprove o fato; contudo, é uma excelente ideia. Na Roma antiga, quando um general voltava de uma campanha vitoriosa no estrangeiro, fazia-se uma grande procissão pela cidade. O povo saía às ruas para assistir ao desfile triunfal do comandante vencedor e homenagear a grandeza que ele trazia para a pátria. Era a honra máxima que um cidadão romano podia almejar. Mas, para chegar a isso, ele devia ter trabalhado muito por Roma. Ele devia ter matado, em combate, pelo menos 5 mil soldados inimigos. Tinha de mostrar o que era. Os chefes derrotados, que desfilavam atrás do seu cargo, devia ter enfrentado um exército, no mínimo, equivalente ao seu. E, acima de tudo, devia trazer a sua tropa de volta para casa, porque um líder é responsável pelos seus liderados. Entretanto, os romanos que passaram à história como os símbolos do orgulho, paradoxalmente, tinham em alta conta a modéstia pessoal. Como, então, receber toda essa homenagem, desfilar vitorioso pela multidão como um rei, ser ovacionado como grande triunfador e não se encher de soberba? É aí que aparece a grande ideia. Logo atrás do general vitorioso, no mesmo carro puxado por quatro cavalos que ele conduzia, ficava um escravo. De tanto em tanto tempo, ele dizia baixinho no ouvido do triunfador: memento mori, ou seja, lembre-se de que você vai morrer um dia. Com certeza, nada melhor para baixar a soberba de qualquer alta autoridade que começa a se achar o bom, o melhor. Lembre-se de que você vai morrer um dia. Essa reflexão que, de tempos em tempos, seria oportuno nos permitirmos. Não somos imortais na carne, embora alguns, antecipando novas e surpreendentes conquistas da ciência médica, apregoem que chegará o dia em que não mais haveremos de morrer. Seria trágico e enfadonho. Isso se chama dinamismo e renovação. Mas lembrar que teremos fim um dia, que nossos eventuais inimigos também haverão de morrer, que tudo passa, é medida salutar. Nada é perene sobre a terra. Passam as questões corrigueiras, o poder, a autoridade humana, a vida. O que hoje é, amanhã poderá deixar de ser. Assim, reflexionando, não ficaremos agarrados a pretensos cargos, a fortunas, a interesses mesquinhos. Tudo é transitório na terra. Hoje detemos o cargo. Amanhã estará em outras mãos. Hoje comandamos centenas de pessoas. Amanhã, essas mesmas pessoas poderão estar acompanhando o nosso funeral. Assim sendo, semeemos o bem. Façamos nosso melhor como se hoje fosse nosso último dia neste mundo. Amemos, abracemos. Façamos nosso melhor, porque o amanhã poderá nos surpreender nos campos de uma realidade que apenas supomos, mas temos a certeza absoluta. Pensemos nisso, mas pensemos agora.

SOMOS RESPONSAVEIS PELO MUNDO
19 Mar 20264:45EP 1611

SOMOS RESPONSAVEIS PELO MUNDO

Somos responsáveis pelo mundo. Em tudo que fazemos, afetamos as pessoas de três modos: alteramos o seu tempo, a sua memória e as suas reações. Os mínimos comportamentos podem interferir na história da humanidade. Quando alguém, em uma região isolada da Amazônia, abate um pássaro, ele afeta a história. O pássaro não porá ovos, que não serão chocados e não gerarão descendentes. Isso afetará o consumo das sementes, dos predadores e toda a cadeia alimentar. Afetará o ecossistema, a biosfera terrestre. A ausência do pássaro abatido afetará o processo de observação dos biólogos, interferindo em suas pesquisas, seus livros, sua universidade e sua sociedade. Quando um aluno tem problemas na leitura perante uma classe e é obrigado a repetir muitas vezes o mesmo trecho, sob deboche dos colegas, registra a experiência. Isso pode se transformar em um bloqueio da sua inteligência. Pode gerar gagueira, insegurança, afetando de forma drástica seu futuro como pai e como profissional. Eventualmente, poderá nunca mais conseguir falar em público. Uma pessoa que se suicida altera o tempo dos amigos e dos parentes. Ele despedaçará a emoção e a memória deles. Terão lembranças tristes, pensamentos perturbadores que afetarão as suas histórias. Consequentemente, cada um deles interferirá na história de outras pessoas, alterando o futuro da sociedade. Quando Hitler se mudou para Viena, em 1908, tinha o objetivo de se tornar um pintor. Rejeitado pelo professor da Academia de Belas Artes, ele teve afetada a sua afetividade, a sua emotividade. Tudo isso influenciou sua compreensão do mundo, suas reações, sua luta no partido nazista, sua prisão e seu livro. O processo interferiu na Segunda Guerra Mundial, afetando a Europa, o Japão, a Rússia e os Estados Unidos. Os rumos da humanidade foram alterados. É possível que, se Hitler tivesse sido aceito na Escola de Belas Artes, tivéssemos um artista plástico medíocre, mas não um dos maiores sociopatas da história. Não que a sociopatia de Hitler seria resolvida pelo seu ingresso nazar, mas poderia ter sido abrandada, ou até mesmo deixado de se manifestar. E, como consequência, se teria poupado quase 70 milhões de vidas que foram perdidas nos seis anos da Segunda Guerra Mundial. Não somos uma ilha, somos uma grande família, uma única espécie. Dessa forma, cada um de nós é responsável, em maior ou menor proporção, pela violência do mundo, pelo terrorismo, pela fome. O que fazemos influencia as pessoas que influenciam outras, que alimentam os sistemas e desencadeiam reações. Somos mutuamente afetados pelas reações uns dos outros. Assistir a um filme, conversar com um amigo, elogiar alguém, promover um ato cívico, auxiliar a outra em acolher uma criança pode mudar pouco ou muito o curso de nossas vidas. O que fazemos afeta a nossa vida e a de outras pessoas. Pensemos, assim, em tudo que dizemos e façamos. Em meio a um incêndio, podemos usar nosso verbo para acalmar as pessoas ou para aumentar o desespero. Da nossa forma de agir poderão resultar muitas mortes ou muitas vidas salvas. Pensemos nisso antes de agir no próximo minuto. Somos responsáveis pelo mundo.

A SOLIDÃO DE UMA VIDA LÍQUIDA
18 Mar 20265:04EP 1610

A SOLIDÃO DE UMA VIDA LÍQUIDA

A Solidão de uma Vida Líquida A primeira vez que ouvi os termos mundo líquido, vida líquida, tempos líquidos, eu confesso que não entendi, até conhecer a obra do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, morto em 2017, aos 91 anos, com suas faculdades mentais intactas. Em seus livros, ele fala sobre a comunicação através das mídias sociais e suas dificuldades. Zygmunt chamou esse momento pós-moderno de relações líquidas, isto é, relações efêmeras, sem laços sólidos de afetividades. E um dos maiores efeitos colaterais das mídias sociais, isso já abordamos aqui no Pense Nisso, é a solidão interativa. O sociólogo afirma que podemos passar horas, dias na internet e sermos incapazes de ter uma verdadeira relação humana, seja com quem for. A solidão interativa se espalha nas redes sociais, especialmente no Facebook. São fotos e fotos postadas, a maioria forjando uma felicidade, quando, na verdade, é tudo fake. As mais usuais são aquelas em que o autor se auto-fotografa, as famosas selfies, e sai espalhando-as de um dia para o outro, quando não de uma hora para outra. E aquelas dos momentos felizes? Sim, tem gente que acha que os seus instantes de lazer e diversão têm que, obrigatoriamente, ser vistos por todos. E lá vai mais um poste ao lado do namorado ou namorada, dos amigos, geralmente com áreas de forçação de barra. Porque a gaiola do trânsito é uma fórmula, forjada por nós mesmos, só pode ser aberta pela chave da felicidade plena. Temos milhares de amigos nessa cornucópia virtual, nessa caixa de Pandora do século XXI. Eis-nos diante de mais uma quimera: o alto engano. O alto engano é peça-chave para a nossa sobrevivência. Mentimos não só para os outros, mas, principalmente, para nós mesmos. Mesmo protegidos na redoma da interatividade, continuamos sós, ali onde apenas a solidão nos alcança. E, enquanto declamamos a torto e a direito, sugerindo que estamos sempre on, a vida verdadeira continua off. E nunca nos damos conta de que, no fim, toda a solidão que nos rodeia, essa sim, é real, porque bytes, bits e pixels não transmitem calor, e o verbo sem o hálito quente é apenas palavra morta. E, no final, só informamos as nossas quimeras, as nossas fantasias, e nos comunicamos cada vez menos como pessoas reais. E é a isso que chamamos de solidão interativa. Sigmund Baumann definiu o mundo líquido em que vivemos com estas palavras: é uma situação muito ambivalente e, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários. Estamos todos numa solidão, inseridos numa multidão, ao mesmo tempo. Assim, não será a tecnologia que nos afastará da solidão. Ela ainda se faz presente em nossos olhos, porque não vivenciamos os valores da solidariedade, da compaixão, da fraternidade. E, por mais que a tecnologia se desenvolva, por mais recursos nos ofereça, jamais eliminará a solidão de dentro de nós. Poderá, sim, agregar milhares de nomes em nossas redes de relacionamento. Porém, para preencher as necessidades do nosso coração, para que nele não haja mais espaço para a solidão, necessitamos cultivar a fraternidade, que pode até se iniciar no mundo virtual, mas será que, inevitavelmente, migrar para a realidade das ações do nosso coração? Dessa forma, a felicidade não será líquida, e sim, sólida. Pense nisso, mas pense agora.

PARA AQUELES QUE NÃO PODEM VER
17 Mar 20264:18EP 1609

PARA AQUELES QUE NÃO PODEM VER

Para aqueles que não podem ver. Aquela parecia ser apenas mais uma cerimônia de formatura de grau superior. Muitas pessoas reunidas para celebrar a conquista de seus amores. Nomes gritados com empolgação. Convenções ritualísticas antigas. Enfim, tudo que sempre se encontra nessas celebrações. Excelentíssimos, ilustríssimos, dissentes, docentes, todos estavam lá. Os formandos, um a um, desciam de suas cadeiras, organizadas em fileiras atrás da mesa principal. A cada nome, ouvia-se uma pequena algazarra de dez, quinze, vinte pessoas, homenageando aquele jovem, em meio ao grande público, que só prestava atenção quando ouvia o nome do formando que estavam prestigiando. Seguia o cerimonial. Mais um nome chamado. E um silêncio profundo. A formanda demorou um pouco mais para chegar à mesa de autoridades e o fez com o apoio de um auxiliar da empresa organizadora do evento. Ela recebeu o diploma simbólico, e o público, que até agora apenas esperava o momento de felicitar seus parentes, iniciou uma demorada salva de palmas. As pessoas estavam surpresas. Uma jovem com deficiência visual, recebendo o grau de pedagoga das mãos do representante da universidade. Pensamentos ganharam os ares do anfiteatro. Os mais objetivos e práticos pensavam como ela conseguia, como conseguiu estudar, como fazia as provas. Outros, céticos e insensíveis, com a ideia de que ninguém consegue sucesso por merecimento próprio, pensavam: ela deve ter recebido ajuda dos professores que se apiedaram da sua condição, ou deve ter facilitado sua vida para que ela pudesse conseguir. Muitos estavam simplesmente com uma expressão de admiração em suas faces. Sensibilizados, compreendiam que aquilo era possível: uma deficiente visual se formar na universidade. Sua comemoração, com o diploma nas mãos, foi vibrante, digna de uma autêntica vencedora. Prosseguiu a cerimônia, iniciando-se as homenagens. Na homenagem a Deus, lá estava ela novamente, levantando-se e sendo guiada até o púlpito. Havia um brilho especial em sua face. Uma alegria radiante, vinda de um espírito que enxergava melhor do que todos aqueles que estavam ali, que viam apenas com o sentimento da visão. Sua homenagem a Deus foi emocionante e sergela. Seus dedos passavam suavemente sobre os pequenos púlpitos. Pontos em relevo da folha de discurso. Pontos criados por um outro jovem, o francês Louie Braille, no século 19, e que se tornaram uma das janelas de acesso ao mundo para os deficientes visuais. Suas palavras eram claras, sua dicção perfeita e sua mensagem divina. Ela agradecia a Deus por estar ao seu lado naquela conquista. Seu coração mostrava ao mundo o verdadeiro amor ao Criador, através da sua resignação e perseverança na existência. Ela dizia para aqueles que não podem ver que tudo é possível se persistirem, se lutarem e não desanimarem. E, sem palavras, apenas com sua presença, dizia que há muito mais beleza neste mundo do que nós imaginar e que sonhar sempre será preciso. Ela dizia isso para aqueles que ali estavam e que ainda não haviam aprendido, realmente, a ver. Pense nisso, mas pense agora.

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